Arquivo de Março, 2007

Nota: Fluxus tempus est aeternus quod inexorable

Março 14, 2007

O artigo em causa não pretende de maneira nenhuma desvirtuar o verdadeiro e complexo milagre que é o corpo humano. Uso a palavra milagre com alguma renitência, dada a sua forte conotação religiosa, mas a construção que é o corpo e toda a engenharia por trás de mecanismos como o olhar, o olfacto, a audição, o tacto, o paladar (falando só de mecanismos macroscópicos), etc., bem como o privilégio que é sermos portadores de tais capacidades, são razão suficiente para me levar a utilizar tal palavra. Para mim, o corpo ou “navio”, como eu referi, são um milagre na verdadeira acepção.

P.S. – Reflictam alguns momentos sobre a beleza de qualquer um dos mecanismos acima referido, pensem neles não como pensam no dia-à-dia, ou seja, sem os assumir como garantidos, quando conseguirem ver a beleza por trás da milagrosa engenharia que é o corpo, então percebem aquilo que eu estou a dizer.

Fluxus tempus est aeternus quod inexorable

Março 14, 2007

   Nada me custa mais que pensar que, um dia, tal como a chama de um isqueiro quando se fecha a saída do gáz, eu me vou apagar. Sempre que penso nisto, um pedaço de mim morre. Só para imaginarem o quão triste é para mim este assunto, pensem que eu preferia morrer a viver sem uma parte de mim. Dado que eu não quero, de todo, morrer imaginem como isto me faz sentir. À luz da razão do meu pensamento, este fenómeno é pura e simplesmente esmagador. A crueldade que é vivermos com a noção de que caminhamos inexorávelmente para um fim é avassaladora prova de que a nossa consciência é não só um dom como também uma maldição. E o que me assusta não é exactamente imaginar que vou ‘perder’ o meu corpo. Apesar de o meu corpo e aquilo que eu sou e as pessoas conhecem estarem indistinguivelmente ligadas, estas são duas entidades distintas e muito reais. A que me preocupa “perder” é a segunda. Apesar de ao recordamos alguém, ou ao tecermos algum julgamento sobre alguém, nos “apoiarmos” mormente na representação física da existência da pessoa, quando penso em mim não é no meu corpo que me fixo, mas sim nessa entidade que o habita e que o anima e que apesar de distinta é deste indissociável. Uma sem a outra não existe. É o desaparecimento dessa entidade intangível que é o ser, aquilo que me atormenta. Esse tormento provoca em mim um sentimento de deslocação e vertigem como se de repente me encontrasse fora, fora do meu “navio”, esse transporte efémero que me confere o dom da vida. É com uma enorme sensação de impotência que encerro este pensamento, na consciência de que me é completamente impossível perpetuar a existência física do meu ser no fluxo temporal e com esperança de conseguir perputar aquilo que sou através da memória das gerações vindouras.